O Que Estou Lendo?: Rakushisha – Adriana Lisboa

Já faz um tempo que eu venho querendo ler Adriana Lisboa, mas como toda literatura nacional contemporânea os livros dela são de difícil acesso. Caros pra comprar em livrarias físicas e até na internet, mal divulgados, inexistentes em bibliotecas, enfim, o que não falta são dificuldades. Mas aí, por algum golpe de sorte eu tinha um crédito no Skoob e nenhum livro interessante além de Rakushisha estava disponível por um crédito no momento. Não era o livro pelo qual eu queria começar a ler a autora, porque tantos os comentários quanto a sinopse de Sinfonia em Branco e Hanói eram mais interessantes, mas é o que temos pra hoje.

Rakushisha narra a viagem de um casal (até agora casal só no sentido de uma dupla formada por um homem e uma mulher) ao Japão, em pontos de vista (não necessariamente em 1ª pessoa) alternados. É um livro bem curtinho e eu ainda estou bem no começo, então por enquanto não tenho muito a comentar, mas o que mais gostei até agora foi como a autora captou a sensação de não-pertencimento, de consciência mais aguçada do que o normal para o que está ao seu redor porque aquilo não lhe é familiar, ou, pelo menos, não é familiar há muito tempo. Isso acontece com a protagonista Celina no Japão, mas, ainda no Brasil, o protagonista Haruki também vivencia esse aguçar de sentidos, mesmo que por apenas um momento, em paisagens já muito conhecidas, o que acaba dando um paralelismo bem charmoso ao início do livro.

Não há muita ação, até agora o máximo que rolou foram umas caminhadas e uns diálogos em um metrô, mas o que importa mesmo no livro é a vida interior dos personagens, as suas reflexões durante essas caminhadas ou a forma como a cultura japonesa é percebida pela subjetividade deles e isso é feito de forma muito singela e identificável, de modo que a leitura é fluida. Espero que continue assim, porque vai ser uma variação bem vinda de outros livros contemporâneos que li nos últimos tempos que têm grandes pretensões de linguagem e acabam decepcionando.

De resto, o significado desse título bonito é bem interessante, tem a ver com uma lenda japonesa sobre um homem que plantou muitos caquis e viu todos serem derrubados por uma tempestade, fazendo com que ele chamasse sua casa de Rakushisha, ou Cabana dos Caquis Caídos. Espero que haja outras lendas e traços culturais interessantes como esse ao longo do livro, porque é o que mais me atrai em narrativas de viagem. Aguardem novas atualizações.

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Top 5: Posts do blog dos quais mais me orgulho

A ideia pra esse post nasceu quando eu estava pensando sobre o que qualifica alguém pra falar ou opinar sobre literatura (depois de ler uns comentários literários bem fora da casinha no twitter) e me perguntava se devia fazer um post sobre isso, quando me veio a vaga lembrança de que eu já tinha feito. Fui pesquisar nos arquivos do blog e descobri que tinha feito não só um, mas dois posts bem completos sobre o assunto em 2015, com os quais eu surpreendentemente ainda concordo plenamente. Inclusive acho que hoje não poderia ter feito posts melhores sobre o tema, mesmo que na época eu só tivesse uns 3 semestres de faculdade e hoje eu tenha um diploma de graduação e duas disciplinas de pós.

Isso me fez pensar sobre a quantidade de posts que eu fiz nos anos em que mantive esse blog e em quantos deles eram tão bons quanto os que citei, mas se perderam na minha memória mesmo assim. Eles também não estão registrados na memória de mais ninguém porque eu tranquei esse blog há muito e muito tempo, numa fase de insegurança extrema que me fazia querer registrar meus pensamentos sobre literatura como sempre fizera, mas não querer que ninguém os lesse, e só recentemente reabri a público, então esse post vai ser a minha oportunidade de fazer justiça com os posts que não permiti que ninguém lesse e que joguei no vácuo sem fundo do meu próprio esquecimento.

1 – O Crime do Padre Amaro, vaidade intelectual, cacife pra falar de literatura e outras coisas

O Crime do Padre Amaro, vaidade intelectual, cacife pra falar de literatura e outras coisas – Parte II

Esses posts refletem uma fase muito específica da minha vida, em que eu estava descobrindo o booktube (que dava uma dimensão muito mais pessoal ao que os blogs literários faziam antes), estava participando de um Clube do Livro em que pessoas de todos os graus de conhecimento sobre literatura podiam opinar e estava estudando minhas primeiras cadeiras de literatura realmente interessantes na faculdade, com professores com uma dose nada saudável de vaidade intelectual, que me despertaram reflexões como essa e muitas outras. Tudo isso confluiu para que eu desenvolvesse as ideias centrais que defendo nos posts e que defendo na vida em geral até hoje, mas as experiências que tive desde então me fariam acrescentar algumas coisinhas sobre o valor social que damos à opinião hoje em dia com a internet (coisa que em 2015 ainda não era um problema tão grande) e sobre responsabilidade com a informação (que também não era um problema em 2015, bons tempos), mesmo assim eles cobrem uma gama muito boa de elementos dessa discussão, como a evolução da teoria literária e dos estudos em humanas em geral não ser cumulativa, o papel do leitor para a concretização do papel do livro, para a sua legitimação enquanto arte e expressão, o papel do gosto e o preconceito literário.

2 – Especial Jane Austen – Parte 1: Os Livros

Parte 2: Adaptações e derivações

Parte 3: A autora e o que consumi sobre ela

Parte 4: As fãs, a internet e eu

Talvez seja um pouco de trapaça colocar 4 posts em uma posição só, mas se trata de uma série de posts que considero inteirinha ainda relevante, então eu não podia tirar nada. Quem leu qualquer post desse blog sabe o quanto eu amo a Jane Austen, que é minha autora favorita desde os 12 anos de idade e o quanto eu consumo constantemente bens culturais que fazem parte do universo dela. Essa série de posts foi a forma que eu encontrei na época de reunir tudo isso (os livros que eu lera dela e sobre ela, as adaptações que eu lera e assistira da sua obra e da sua vida, a minha relação pessoal de longa data com a obra dela, as amizades que fiz com outras pessoas que também a adoram, a minha chegada nos fandoms virtuais, enfim) de forma relativamente organizada e que fizesse justiça à relação literária mais prolífica que já estabeleci na minha vida. É engraçado pensar que naquela época só fazia uns cinco anos que eu conhecera Jane Austen e hoje já faz quase uma década, mas ainda concordo com quase tudo aquilo, inclusive com meus momentos de fangirl que peço que perdoem, e de modo geral o que mudou foi apenas que li mais obras dela e assisti mais adaptações hoje, porque o sentimento que ela me despertava então e que me despertou na primeira vez que a li continua o mesmo.

3 – Blá, blá, blá: The Kiss Quotient e o amor nos tempos do feminismo 

A coluna Blá, blá, blá foi um espaço que eu criei no blog pra falar sobre coisas que não fossem livros ou pra fazer reflexões mais amplas sobre coisas relacionadas à livros e literatura. Essa coluna abriga alguns dos meus melhores posts, então caso você tenha chegado agora e queira se inteirar sobre todas as bobagens ou coisas sérias que eu falei sobre não-livros por aqui talvez seja bom dar uma olhada no histórico dela. Mas eu queria chamar a atenção pra esse post em específico, porque eu sinto que ele foi um dos poucos em que não faltou nem sobrou nada, não divaguei sobre coisas que não diziam respeito ao tema principal, dei exemplos bem pertinentes e completei o meu argumento de forma satisfatória. O argumento é de que, ao contrário do que dita o senso comum, os romances tem melhorado com o aumento da consciência social ou do que as pessoas erroneamente chamam de “politicamente correto”, e foi inspirado pela leitura de The Kiss Quotient da Helen Hoang, que ainda não tinha sido traduzido no Brasil à época, mas que agora recebeu o patético nome de Os Números do Amor. Leiam se tiverem interesse em romances românticos, feminismo e no porquê de os dois não serem incompatíveis, e de quebra você ainda ganha uma reflexãozinha sobre masculinidades e a importância de repensar também o papel dos homens no gênero romântico.

4 – Resenha Especial: Me Chame Pelo Seu Nome – André Aciman 

Esse post é o exato oposto do anterior, porque sinto que nele faltou e sobrou muita coisa. Faltou organização, comedimento, coesão, enfim, trocentos fatores de textualidade, além de ter faltado foco nas questões literárias, e sobrou emoção porque eu tinha acabado de terminar o livro quando escrevi o post e ainda estava até meio chorosa. Mas é justamente por isso que esse post é um dos meus preferidos, apesar de não ser um dos melhores em termos objetivos: ele representa de forma muito fiel uma experiência de leitura marcante e todas as emoções que sucedem a catarse. Eu já tinha escrito um post sobre Me Chame Pelo Seu Nome durante a leitura, então algumas informações podem ser acrescentadas por ele, mas o grosso de porque esse livro entrou para os meus favoritos da vida antes mesmo do teste do tempo está nessa resenha. Além de sentimentalismo ela também está cheia de reflexões sobre gênero, sexo e passagem do tempo, tudo junto e misturado num rolê aleatório muito intenso.

5 – Top 5 – Livros nacionais para compreender as ditaduras

Além da coluna Blá, blá, blá, eu costumo gostar muito dos meus top 5/top 10 porque eles me dão oportunidade de falar sobre livros (ou filmes e séries) que eu não teria como comentar em outra circunstância. Esse merece destaque porque citei livros, todo muito bons, que acredito que podem favorecer a compreensão da história do Brasil com suas ditaduras constantes e contraditórias que se arrastam desde o início do século passado. O conhecimento sobre esses episódios é especialmente importante no tempo de difusão do negacionismo histórico em que vivemos. Não sou historiadora, nem tenho base de leitura de livros de História com h maiúsculo suficiente pra justificar um post voltado para eles, então todos os livros são ficcionais ou memorialísticos, trazendo pontos de vista de diferentes setores da sociedade sobre os períodos narrados, o que também favorece um exercício de empatia.

 

Resenha Especial: De De Veludo Cotelê e Jeans – David Sedaris (ou das mazelas de fazer da sua própria vida matéria de literatura)

Eu tinha escrito o rascunho do comentário sobre esse livro no O Que Li Nos Últimos Tempos, junto com o Terra dos Meninos Pelados, antes mesmo de terminá-lo, mas depois de terminá-lo precisei criar um novo post porque o livro me fez pensar sobre muitas coisas incômodas que precisam ser comentadas. Já fiz um comentário preliminar sobre ele em um O Que Estou Lendo, então só vou recaptular do que escrevi naquele post que se trata de uma coletânea de crônicas/histórias curtas de humor completamente autobiográficas, publicada em 2004.

As histórias reunidas nesse volume contemplam períodos bem distintos da vida do David, a começar pela infância e culminando em histórias sobre seu relacionamento com os irmãos depois que ele já começara a fazer sucesso usando-os como personagens de suas histórias. No livro anterior do Sedaris que eu lera, Eu Falar Bonito Um Dia, ele focava em momentos menos dolorosamente íntimos, como a sua mudança pra França com o marido e seus problemas com o novo idioma e os seus inúmeros trabalhos ferrados na juventude, antes de conseguir viver da escrita, então ter esse novo vislumbre da vida do Sedaris e das pessoas mais próximas a ele foi uma experiência bem menos engraçada (ainda que tenha momentos que me fizeram gargalhar alto) e bem mais dolorosa do que a anterior.

No meu post do começo da leitura eu comentei que o Sedaris não estava tão cínico em De Veludo Cotelê e Jeans quanto em Eu Falar Bonito Um Dia, mas a verdade é que ele continua cínico, só que nesse livro ele parece se sentir mais culpado por isso, e isso fica especialmente nítido em uma crônica em que ele ouve uma história intensa e chorosa da irmã, que ela pediu pra que ele nunca publicasse, e a primeira coisa que ele pergunta quando ela para de falar é se realmente não pode publicar, o que o leva a passar a madrugada tentando ensinar o papagaio dela a dizer “me perdoe” porque o próprio David não consegue articular essas palavras pra ela. Esse final amargo foi altamente identificável pra mim porque “me perdoe” são sempre as palavras mais difíceis de dizer na minha vida, primeiro porque significam uma admissão de que eu estou errada (não conheço uma só pessoas que goste de admitir que está errada) e segundo porque exigem mais vulnerabilidade do que em geral eu estou disposta a fornecer, e acho que é justamente por conseguir falar de forma honesta sobre todas essas coisas horríveis que nós fazemos e somos, sem qualquer demagogia, é que esse livro me conquistou, mesmo não sendo o mais engraçado.

O Sedaris não é uma pessoa boa (de acordo com a moralidade cristã) e não tenta fingir que é. Ele expõe os pontos mais fracos dos familiares, caçoa deles em alguns momentos (muitos deles vulneráveis), é extremamente julgador e verbaliza pensamentos egoístas e maldosos que muitos de nós gostariam de fingir não ter. Mas você não se importa com isso, porque tudo isso está lhe servindo de entretenimento ou até de escopo pra compreender melhor a natureza humana e sua relação com a sua própria família. Tudo isso só começa a lhe fazer sentir culpado pelo seu envolvimento quando você, como eu, descobre que a irmã mais nova do Sedaris, que aparece nesses textos como a única com quem ele não consegue se conectar de fato, que vive numa espécie de lixão com um riquixá e que evita as visitas familiares, se matou, e que mais tarde o Sedaris publicou um texto em que diz que a última vez em que a viu foi quando mandou que batessem a porta na cara dela em uma apresentação dele.

Depois de descobrir sobre o destino da irmã do Sedaris, eu comecei a pensar sobre o que eu pensaria de ter minha vida transposta para a literatura de jeitos incômodos. Alguns amigos já me citaram em textos, mas até agora sempre foi de forma elogiosa e os textos nunca tiveram repercussão, mas a única vez em que desconfiei que seria retratada de um jeito mais julgador e menos carinhoso, fiquei aterrorizada, então imagino que para a família do Sedaris isso seja terrível. E também me veio à mente o fato de que a única pessoa que eu sinto que é razoavelmente protegida pelo autor (ou que talvez seja realmente tão bom que não há mal a ser dito sobre ele) é o Hugh, seu marido, e isso talvez possa se dever à questão de que Hugh não é um parente de sangue, ele pode terminar o casamento a qualquer momento e talvez o David tenha medo disso e por isso não é extremamente cínico e voraz em suas histórias sobre ele quanto é nas sobre aqueles que não podem extrincar-lhe plenamente de suas vidas por conta de laços intangíveis.

Eu sempre estive ciente de que “kill your darlings” tem que ser seu lema quando se trata de escritores, porque quase todos eles são pessoas terríveis, mas muito talentosas e esperar poder admirar pessoalmente alguém que você admira literariamente é quase utópico, ainda mais porque escrever e publicar exige uma dose de impermeabilidade do ego que não é legal de conhecer na vida cotidiana. Eu não posso fingir que não sabia que o Sedaris era um horrível, porque eu sabia, a minha decepção foi simplesmente porque enquanto eu tinha o distanciamento das suas histórias menos pessoais, isso não importava, mas sentir como se conhecesse aquelas pessoas e vê-las atingidas tão intimamente por aquilo que eu estava lendo não foi uma experiência muito legal e perceber que a desculpa de ser exatamente aquilo e não poder evitar não se aplica ao autor porque ele consegue evitar em relação ao marido foi igualmente desagradável.

Pretendo organizar melhor essas reflexões em outro post, mas acho que, em suma, tudo isso foi só pra dizer que esse livro adicionou uma camada menos risonha à minha experiência com o autor. Mas voltando à literatura, esse livro também foi de uma qualidade bastante irregular, as crônicas de infância iniciais são muito boas, mas depois há uma seção relativamente longa de juventude que é bem tediosa e parece mais um monte de histórias que não chegam a lugar nenhum, não têm punch-lines e que só refletem de forma meio superficial sobre esse período da vida dele. Há uma história muito boa sobre um emprego de limpeza que ele teve que me lembrou bastante do Eu Falar Bonito Um Dia e a partir dela as coisas voltam a ser engraçadas e inteligentes (no caso das histórias sobre suas viagens ou sobre o relacionamento com o marido) ou viscerais (no caso das histórias sobre a família). De modo que, se você for fazer essa leitura esteja ciente de que o ritmo não vai ser constante.

De resto, pretendo continuar lendo os livros do Sedaris e aplicando o “kill your darlings” na minha vida literária, mas preferia que todos os objetos dele fossem como seu irmão, que não se importa com absolutamente nada, e não como a irmã que realmente se magoava.

Tag: Livros Esteticamente Agradáveis

1. Melhor combinação de cores na capa de um livro

Operação Impensável/Pílulas Azuis

Operação Impensável tem uma das melhores capas de livro nacional que eu já li. A foto foi muito bem escolhida, a fonte é boa, e a disposição dos elementos na capa também é ótima, mas o que a torna mais atraente é a combinação de cores: um azul e um vermelho bem vivos que fazem certa evocação de uma guerra dos sexos. Já Pílulas Azuis é uma HQ muito bonita e muito menos conhecida do que merece, que tem na capa uma combinação de laranja e azul pouco usuais, mas que me chamou muito a atenção e que foi o primeiro fator de atração para o livro.

2. Melhor tipografia/fonte na capa de um livro

Cheiro de Goiaba/A História dos Meus Dnetes

As edições dos livros do García Márquez feitas pela editora Record, que tem um padrão de capas com o nome do autor bem grande numa fonte bonita com o primeiro nome um pouco mais pálido e os dois sobrenomes mais chamativos são todas muito bonitas, mas a minha preferida é a de Cheiro de Goiaba, em tons de preto e branco. Também gosto muito da fonte em caixa baixa de A História dos Meus Dentes que combina muito bem com a vibe pop moderninha da capa como um todo (que, por sinal, é linda).

3. Melhor capa simples

Shakespeare and Company – Sylvia Beach

Essa capa não poderia ser mais simples: trata-se apenas de uma foto em preto e branco e de uma faixa preta abaixo com o nome do livro e da autora em tons de preto e vermelho. Mesmo assim eu a adoro, primeiro porque a foto escolhida é simplesmente incrível e segundo porque representa muito bem o livro, pois traz um cliente subindo a janela acima da fachada da livraria enquanto a Sylvia faz pose apontando a cena e um passante olha curioso, o que é exatamente a energia da icônica livraria retratada na obra.

4. Melhor contra guarda

Em Algum Lugar nas Estrelas – Claire Vanderpool

Troquei esse livro no Skoob há algum tempo, por isso tive que recorrer ao Google para encontrar essa imagem da folha de guarda linda com uma ilustração de uma espécie de constelação/mapa relacionado à astrologia, não tenho certeza, com anjos meio renascentistas em tons de azul que combinam com o resto do projeto gráfico do livro. Acho que essa belezura é exclusividade da edição brasileira da DarkSide, que, por sinal, está de parabéns, porque com a capa linda e a edição cuidadosa como um todo me fez comprar o livro sem nem saber direito do que se tratava.

5. Melhor mapa

O Hobbit

Com certeza já vi mapas mais bonitos em outros livros, mas o único que consegui me lembrar que realmente tivesse relevância para a história e que ao mesmo tempo fosse bonito foi o de O Hobbit, cuja qualidade nessa imagem ficou abaixo de zero porque também não tenho o livro.

6. Melhor capa dura

Antologia da Literatura Fantástica/Mulherzinhas

Esses dois livros poderiam aparecer em outras categorias dessa tag. A Antologia da Literatura Fantástica, com essa ilustração meio surrealista, muito bonita e colorida, poderia ser citada em Melhor Ilustração, já Mulherzinhas poderia aparecer em Melhor Capa Simples, porque tem pouquíssimos elementos. Mas escolhi citá-las aqui porque são os dois livros capa dura mais atraentes que eu tenho, apesar de outros capa dura mais enfeitados ou mais luxuosos. Os dois também têm o bônus de suas capas combinarem muito com as histórias que contêm.

7. Melhor contracapa

Me Chame Pelo Seu Nome – André Aciman

Tentei de tudo pra encontrar uma foto da contracapa sem essa faixa do filme, mas foi impossível, então vai essa mesma. Eu não sei se vocês vão entender o meu gosto por essa contracapa, mas é a minha preferida de todos os livros que tenho: é minimalista, a cor pêssego e a ilustração elegante e pequena do pêssego são lindíssimos e ela se exime de colocar comentários desnecessários sobre o livro, contentando-se com o que realmente importa, dar um exemplo do texto em um trecho bastante significativo.

8. Melhor entrada de capítulo

Livros de contos de fadas com letras capitulares lindas, como o Volta ao Mundo em 82 Histórias.

 

 

 

Outra foto com qualidade 0/10, mas, de qualquer forma, letras capitulares são essas primeiras letras de um texto super trabalhadas e cheias de arabescos, que em geral aparecem em livros de contos de fadas, o único que me lembrei pra citar foi Volta ao Mundo em 52 Histórias, que também poderia ser citado em ilustração porque tem as ilustrações mais lindas que já vi na minha vida.

9. Melhor folha de rosto

Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade e Persuasão

Essa edição de luxo da Martin Claret tem uma folha de rosto com um Ex-Libris fofíssimo rodeado de arabescos floridos (que tá completamente invisível nessa foto, mas enfim) e esse padrão de flores rosa no fundo azul que eu simplesmente adoro. Acho a capa em si um pouco cafoninha, com esses tons berrantes de rosa e dourado, mas a folha de rosto foi um grande acerto. Por sinal, tiremos todos o chapéu pra evolução das edições da Martin Claret desde os ingratos tempos da coleção A Obra Prima de Cada Autor que tinha capas com ilustrações que faziam todos os livros parecerem livros espíritas.

10. Melhor lombada

Neuromancer – William Gibson

Essa foto gigantesca foi só pra mostrar essa lombadinha amarela, que não está aparecendo aqui por escolha minha e sim porque ela é a que mais chama a atenção de todo mundo que olha a minha estante. Não gosto muito de amarelo, mas tenho que admitir que a lombada ficou bem chamativa por causa da cor e desse “M” meio deformado, o que pode ser comprovado por ser a única que sempre desperta comentários entre todas que eu tenho.

11. Melhor Ilustração

Niketche – Uma História de Poligamia/Cem Anos de Solidão

Nessa pergunta eu optei por citar ilustrações de capas, mesmo pensando que a categoria foi pensada para ilustrações no corpo do texto mesmo. A capa de Niketche não possui exatamente uma ilustração, se não me engano se trata de uma foto do detalhe de um bordado, mas eu acho muito mais bonito que uma ilustração em si, tanto as formas como as cores muito vivas e combina demaaaais com a história do livro. Já essa edição de Cem Anos de Solidão eu comprei única e exclusivamente por causa da capa, porque eu poderia muito bem ter comprado uma das edições super caprichadas que saíram mais recentemente, inclusive algumas com alto relevo e super coloridas. Talvez nem todo mundo vá entender meus motivos pra gostar dessa ilustração, mas ela me lembra uma coisa extremamente latina (e que coisa mais latina que esse livro?) que são aqueles retratos que se fazia à tinta dos nossos avós nesse mesmo estilo e que eles geralmente penduravam na sala com orgulho. O jeito como os personagens foram representados, com suas características mais marcantes bem evidentes, como a careca da Remédios, a Bela.

12. Melhor corte

O Gigante Enterrado – Kazuo Ishiguro

Esse livro todo é bem bonito, mas a minha parte preferida é esse corte azul que faz ele parecer muito limpo e elegante. Em geral, quando um livro tem um corte pintado, é de preto e acaba parecendo uma fita cassete, mas esse continua parecendo um livro, mas um livro bem caprichado e é por isso que gosto dele.

O Que Li Nos Últimos Tempos #28: A Terra dos Meninos Pelados – Graciliano Ramos

A leitura desse livro foi uma das coisas mais inesperadas desse ano. Eu adoro o Graciliano, mas Terra dos Meninos Pelados não estava entre os livros dele que eu queria ler, que são muitos. Pra mim ele era uma vaga lembrança de adaptação da Globo na minha infância, assim como Hoje é Dia de Maria e A Pedra do Reino. Mas aí, em uma tarde livre no shopping, sentei na minha livraria favorita e ele estava bem na minha cara e acabei simplesmente começando a leitura e continuando sem parar até o final.

Não posso escrever muita coisa sobre o enredo, primeiro porque ele não é o foco, então não é o elemento melhor desenvolvido na obra, e segundo porque é um livro tão curtinho que eu estragaria tudo. O que eu posso dizer é que Raimundo, um menino careca e com um olho preto e outro azul, depois de ser muito ridicularizado pelos outros meninos que conhecia, acaba indo parar em uma terra em que todos são como ele e tem nomes esquisitos e onde os rios se fecham para que você passe sobre ele e as laranjeiras saem da sua frente pra não atrapalhar seu caminho e as cigarras voam sobre discos de vinil.

Pra mim esse livro foi uma lembrança muito boa do encantamento que eu tinha com os livros infantis quando eu era realmente uma criança. Eu não fazia nenhuma dessas considerações que agora faço sobre valor literário, não refletia sobre os problemas que estavam sendo abordados ali (mesmo que os internalizasse à minha maneira intuitiva), eu simplesmente sentia o livro, lia com impressões muito puras, genuínas e não-influenciadas por experiências e leituras anteriores. Foi mais ou menos como me senti enquanto lia, por isso não sou capaz de fazer um juízo de valor sobre esse livro.

Adorei a linguagem e o ritmo imposto a ela pelo Graciliano, que torna as palavras mais simples muito ricas, por empregá-las como se fosse alguém que fale muito gostoso encadeando-as uma na outra como contas num cordão e não um escritor colocando-as no papel frio. Os nomes inventados por ele para os personagens e o país imaginário são exemplo dessa brincadeira simples com a linguagem. Também adorei a originalidade douniverso criado por ele, porque se você já tem certa experiência com leitura de livros infantis, quase todos os mundos imaginários se parecem em alguma medida, seguindo um estilo meio narniano, o que não é o caso. A mensagem sobre bullyng e aceitação das diferenças é repassada de forma encantadora e nada didática, por meio da própria experiência do menino protagonista com seus pares. E é disso que criança gosta: não-didatismo (por experiência própria e pelas leituras da disciplina de literatura infantil na faculdade).

Por fim, se há alguma ressalva a ser feita é em relação ao fim muito abrupto, que faz com que o livro pareça ter sido interrompido apressadamente, ao invés de terminado de forma planejada. O problema pode ser que sempre se espera uma conclusão pro home-away-home e nesse caso nunca chega a ser descrita a chegada de Raimundo de volta à casa, mas fica a impressão de que falta algo no fim. Mas isso não compromete em nada o encantamento do livro e queria que muito mais gente conhecesse os nossos livros infantis nacionais, que tem gosto e cheiro de Brasil, como O Menino Grapiúna do Jorge Amado e as nossas coletâneas de contos populares, porque é muito bom ler sobre princesas europeias nos contos de fadas importados, mas quando eu era criança também adorava ler sobre a malandragem do Pedro Malazartes ou sobre personagens que interagiam com árvores e animais que eu de fato conhecia, ao invés de tordos e sicamoras. Fica a diga de um bom exemplar pra começar nessa exploração da literatura infantil brasileira.

Top 10: Meus Clássicos Favoritos

Para esse post, acho que antes de mais nada é preciso esclarecer que eu não leio muitos clássicos. Estudei Letras durante cinco anos (e se você contar a pós fracassada que eu comecei, abandonei e agora tô tentando começar de novo, continuo estudando) e a única coisa que tirei de lição foi: a vida é muito curta pra ler clássico chato.

Durante o ensino médio eu só fui obrigada a ler um livro, que não era necessariamente um clássico, e sim um livro antigo e extremamente ultrapassado, chamado O Gaúcho, do José de Alencar. Todos os outros livros antigos que li na época, e foram muitos, foram bem melhores que esse, e como ele não se encaixa absolutamente na definição de clássico de “livro que nunca terminou de dizer o que se propõe a dizer” não faço ideia de porque fui obrigada a lê-lo. Já na graduação eu também fui obrigada a ler alguns, especialmente de literatura portuguesa, mas eu só concluía os que realmente achava interessantes. Já nas minhas leituras espontâneas durante a graduação, ao contrário do ensino médio, eu li bem menos clássicos e os que eu li foram muito direcionados para gostos específicos que eu descobrira, como literatura inglesa feminina do século XIX, clássicos da primeira metade do século XX e coisas do tipo. Todas essas experiências de leitura espontânea de clássicos foram muito boas, então o que quero dizer pra vocês, depois de toda uma vida lendo e estudando literatura, é que não leiam obrigados. Sempre dê uma chance ao início do livro, mas se não gostar, não há mal nenhum em abandonar, porque se forçar a terminar um livro que você não gosta só porque é um clássico ou talvez apenas um livro antigo injustamente rotulado de clássico é desperdício de energia. Sempre vai haver um clássico que fale com você, mesmo que ele não seja necessariamente o mais alto expoente do cânone ocidental. Muitos deles tem uma vitalidade incrível, mas são negligenciados na escola ou no próprio cânone em favor de livros que perderam o fôlego há muito tempo e que preservam meramente uma importância historiográfica. Por isso essa lista de clássicos preferidos vai ter muitos livros que raramente são lembrados quando se fala de clássicos, o que é extremamente injusto, mas vamos ao que interessa

Orgulho e Preconceito – Jane Austen

Provavelmente não há um post nesse blog que não seja uma resenha em que eu não tenha citado Jane Austen, Orgulho e Preconceito ou alguma de suas adaptações, então não vou me demorar muito nele. Basta dizer que nunca conheci ninguém que não gostasse de Orgulho e Preconceito, independente da idade. Ele provavelmente seria minha primeira indicação pra quem quer começar a ler clássicos porque a linguagem é extremamente acessível, mas não pobre, o enredo e os personagens são envolventes e ele discute questões muuuuito atuais ou talvez sejam apenas questões que nunca param de ser atuais. E se você começar por ele e gostar, tem muitos outros clássicos no mesmo estilo, como os outros livros da Jane Austen (especialmente A Abadia de Northanger, Persuasão e Emma) e Mulherzinhas da Louisa May Alcott.

Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

Esse livro, para os padrões dos clássicos, é extremamente recente então não há o obstáculo da antiguidade e inacessibilidade linguística ou histórica, além disso ele é uma das melhores EXPERIÊNCIAS DE LEITURA que você pode ter porque uma vez que você adentra a atmosfera fantástica e labiríntica de Macondo e da família Buendía você sente de tudo e têm consciência de que está vivendo uma experiência épica. Com muitos livros o que me acontece é ler gostando, mas só perceber ao final que vai entrar para os meus favoritos da vida ou algo do tipo; com Cem Anos de Solidão eu já sabia disso o tempo todo, porque é uma leitura intensa demais pra que você passe incólume por ela. Leiam, por favor e se gostarem a América Latina está cheia de grandes escritores com obras que vão lhe afetar tão intensamente quanto. Recomendo principalmente A Casa dos Espíritos da Isabel Allende e Pedro Páramo do Juan Rulfo.

Lolita – Vladimir Nabokov

Esse livro entra em uma categoria que eu sempre li muito pouco, e que tenho lido cada vez menos, que é a dos homens brancos escrotos fazendo merda e tendo delírios de grandeza. O Humbert Humbert é absolutamente desprezível, mas é um dos melhores narradores que eu já li. Ele te prende com o seu humor negro e extremamente inteligente e em alguns momentos você quase esquece o quão doentio é todo aquele enredo. Todas as palavras se encaixam de um jeito tão mágico sempre que você se pergunta como é possível, e ao fim você acaba absolutamente fascinado ao mesmo tempo em que repugnado. Não recomendo a leitura pra pessoas muito jovens, porque quando você ainda não tem uma ideia muito clara do certo e do errado ou não tem bagagem literária o suficiente pra reconhecer um narrador não-confiável pode cair na armadilha de romantizar esse enredo, mas pra todo mundo que já tem mais maturidade esse livro é absolutamente incrível.

O Morro dos Ventos Uivantes – Emily Brontë

Mesmo amando Jane Austen eu tenho que dizer que esse livro consegue soar ainda mais fresco que as obras da Austen. Talvez a narração em primeira pessoa torne a história menos sisuda, talvez a alternância de pontos de vista dê a ela um dinamismo pouco comum em obras do século XIX, mas, seja por qual motivo for, é um livro de ritmo muito bom, mesmo sendo enorme. Depois que você se acostuma com o enredo lúgubre e começa a entender os personagens e se prender à intensidade apaixonada de todos eles, não dá mais pra largar. E só pra vocês terem uma dimensão do quão genial esse livro é, ele com certeza tem alguns dos personagens mais bem construídos que eu já li. Caso gostem desse tipo de clássico, o próprio clã Brontë tem outros exemplares a oferecer, como Jane Eyre, que apesar de bem mais puritano é muito bom também.

Macunaíma – Mário de Andrade

Nunca imaginei que um livro que pretende ser um retrato da formação do Brasil conseguiria sê-lo de forma tão pouco pretensiosa. Macunaíma tem um ritmo alucinante e momentos constantes em que você se pergunta se está lendo aquilo mesmo num clássico ou se é delírio seu. Além disso, o humor dele é absolutamente impecável, como deve ser um livro sobre o Brasil. Você termina de ler rapidinho e se pergunta porque não é ele que é leitura obrigatória nas escolas. E caso goste dele, há inúmeros outros contemporâneos do Mário que também são grandes escritores negligenciados na escola, como a própria Clarice Lispector (tão injustiçada pelas citações cafonas e patéticas que atribuem a ela) e o Fernando Sabino (Encontro Marcado é uma das melhores coisas já produzidas no Brasil, leiam por favor, e leiam jovens).

O Apanhador no Campo de Centeio – J.D Salinger

Não sei se as pessoas o consideram um clássico ou um livro cultuado por esquisitões, mas de qualquer forma, é um grande livro, que praticamente inaugurou as narrativas narradas por jovens. Por se tratar de uma história de formação de um adolescente, que fala na voz de um adolescente e cujas experiências são tipicamente adolescentes, também recomendo que se leia durante a adolescência, para que se tenha o maior grau de identificação, mas aviso que a tradução disponível no Brasil é completamente ultrapassada e arcaica, o que pode fazer a leitura não soar tão fresca quanto devia.

Dom Casmurro – Machado de Assis

Considero uma sorte muito feliz que nosso maior e mais genial escritor também seja um dos mais dinâmicos, com voz narrativa mais fresca. Escolhi Dom Casmurro pra representar o Machado porque é meu livro preferido dele e porque é o que soa mais atual também. A narrativa em primeira pessoa, o princípio que se assemelha a um romance romântico de final feliz, mas que vai aos poucos se desenrolando de forma intensa e vertiginosa na história de dúvida definitiva não só da literatura desse país, mas da literatura, o humor negro impecável do Machado são todos elementos que me apaixonaram ainda muito jovem e que podem apaixonar qualquer um que entre em contato com ele de mente aberta. O resto da Santíssima Trindade do Machado, a saber Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, também são excelentes e tão atuais quanto Dom Casmurro. Memórias Póstumas inclusive utiliza recursos narrativos muito mais modernos do que muitos escritores contemporâneos ousam fazer e é acidamente hilário.

A Megera Domada – William Shakespeare

Eu li várias peças do Shakespeare durante a adolescência e, por incrível que pareça, amei quase todas. A que menos gostei foi Romeu e Julieta e considero extremamente injusto que esse tenha sido o trabalho do Shakespeare que ficou mais conhecido entre as novas gerações. Entre os dramas não há duvida de que a melhor obra dele é Hamlet, mas acho que o ideal é começar pelas comédias, ainda mais se você for jovem. Sonhos de Uma Noite de Verão é adorável e muito engraçada, mas tem elementos de mitologia que a afastam da realidade imediata do leitor, então a minha preferida entre as que li é A Megera Domada, que é absurdamente engraçada e, pelo menos, aparentemente, muito à frente do seu tempo. Também é o enredo dela que deu origem a 10 Coisas Que Odeio Em Você (MELHOR TRABALHO DO HEATH LEDGER E QUEM DISCORDA É FANBOY DE CORINGA) e O Cravo e a Rosa (a novela mais engraçada que a Globo já produziu).

Senhora – José de Alencar

Não pensem que só porque José de Alencar me traumatizou com O Gaúcho que eu desisti dele. Nunca li nada da sua fase indianista, mas li tudo dos perfis de mulher (Lucíola, Diva e Senhora) e eles são bem legais. Senhora é, obviamente, superior, mas os outros também têm seu valor, especialmente Lucíola, que tem momentos de erotismo lindíssimos. Mas voltando à Senhora, ele é o meu livro preferido do Alencar porque a trama do Fernando Seixas e da Aurélia é uma das coisas mais envolventes que já li em literatura brasileira, tanto que na minha primeira leitura eu nem conseguia largar o livro antes de saber o que aconteceria. A tensão entre os protagonistas, que caminhava lindamente na linha entre ódio e atração, era perfeitamente construída e os dois, apesar das óbvias limitações da romantização típica da época, eram muito bem construídos. Vários foram os momentos em que tive, literalmente, calafrios com a descrição desses momentos mais intensos, e, senhor, tudo é intenso nesse livro. Seixas sempre vai ser um dos meus heróis românticos preferidos, passe o tempo que passar, porque sua redenção idealizada é facilmente perdoável quando você considera o qual interessante é a jornada dele. Então leiam esse cearense rochedo que não sabia fazer só tijolão rebuscado.

São Bernardo – Graciliano Ramos

Pensei em colocar A Metamorfose nessa posição, mas ele ainda não passou pelo teste do tempo pra eu saber se vai seguir sendo um dos meus favoritos, enquanto São Bernardo tem lugar cativo no meu coração desde o Ensino Médio. Não tenho certeza se ele foi o primeiro ou o segundo livro do Graça que eu li, mas ainda hoje é o que eu mais gosto, porque o Graciliano tem um jeito de escolher as palavras mais econômicas e mesmo assim ter um estilo inconfundível, que você sabe que é nordestino não só pela ambientação, mas pela cadência da linguagem, e que é profundo sem qualquer traço de prolixidade. Eu também acho muito injusto que só se leia dele o Vidas Secas, quando esse homem tem tantas obras incríveis. Vamos resgatar e valorizar, minha gente. No eixo nordestão de aço, também indico O Quinze da Rachel de Queiroz, que apesar de ser a história de seca que se espera do Nordeste é uma história contada sem qualquer piedade ou condescendência, e tudo do Jorge Amado, mas especialmente Capitães da Areia, que é uma das coisas mias bonitas e cruas que eu já li.

TBR: Livros Para (Tentar) Ler Até o Final do Ano

O Quarto de Giovanni – James Baldwin

Eu acabei de comentar sobre esse livro em um post de “O Que Estou Lendo”, então acho que não preciso dizer mais nada. Ele só está entrando nesse post porque dei uma pausa básica na leitura e quero que esse registro sirva pra eu não abandoná-lo como faço frequentemente.

De Veludo Cotelê e Jeans – David Sedaris

A pausa em O Quarto de Giovanni foi pra me concentrar nesse livro que eu comecei a ler há milênios e mesmo sendo levíssimo não consegui terminar até agora. Estou mais ou menos na metade no momento e como estou com um ritmo de leitura constante tenho esperança de que realmente vá dar certo.

Branco Letal – Robert Galbraith

Outro que comecei há milênios. A princípio o ritmo de leitura estava até bom, mas depois começou a degringolar e eu acabei abandonando como faço constantemente nessas ocasiões. Ainda tenho toda a intenção do mundo de voltar a ler antes do final do ano, então vou mandar essa energia pro universo nesse post.

A Festa de Babette – Karen Blixen

Eu sempre tive muita curiosidade em relação a essa história da Karen Blixen, que eu ouvi falar primeiro pelo filme (inclusive cheguei a baixar, mas nunca assisti) e depois pela edição de bolso da Cosac Naify, mas só agora o interesse está tomando forma concreta porque consegui o e-book do livro. Ele é bem curtinho então pode ser possível encaixá-lo ainda esse ano.

Wayward Son – Rainbow Rowell

EU NEM ACREDITO QUE ELE VAI SER LANÇADO AMANHÃAAA. Eu esperei tanto tempo por essa continuação de Carry On que realmente não parece real que o dia está tão perto. Wayward Son com certeza vai ser enorme, mas como tudo da Rainbow vai ser envolvente e leve, então com certeza vai dar pra ler logo assim que for lançado.

O Caminho de Los Angeles – John Fante

Não é possível passa um ano sem ler nada do Fante. O Caminho de Los Angeles é o mais curto entre os livros dele que adquiria recentemente então provavelmente vai ser o escolhido. Ele também é o único em que eu tenho certeza de encontrar o Arturo Bandini, um dos meus personagens preferidos de toda a literatura, então esse é mais um fator a favor.

Blá, Blá, Blá: Sobre desapego, compras, trocas e reuso.

O livros é, provavelmente, o bem cultural mais passível de compartilhamento físico. Você pode emprestá-lo, vendê-lo, trocá-lo, herdá-lo, ganhar de presente e tudo isso repetidas vezes, em um ciclo que conecta inúmeras pessoas e negócios diferentes, sem que ele fique inutilizável. Contanto que todas as páginas estejam ali, sempre vai haver um sebo, uma biblioteca, uma pessoa sem preconceitos que vai aceitá-lo. E nessa experiência de compartilhamento, ao invés de perder valor como acontece com DVDs e obras de arte (pinturas, esculturas e etc), o livro se enriquece. Eu por exemplo adoro livros grifados porque me permitem saber que passagens tocaram outros leitoras. E ainda tem as dedicatórias escritas à mão, que quanto mais sentimentais melhores.

Eu sempre encarei o livro como uma coisa a ser compartilhada, independente de qual forma isso acontecesse. Sobre livros em formato e-book eu já comentei aqui diversas vezes sobre as formas (nem sempre legais) que eu usava pra fazê-los chegar ao máximo de gente possível. Mas com os livros físicos minhas questões são um pouco mais complexas. Desde cedo, minha diretriz com os livros na estante foi: só ficam os que eu quero ler, os que quero reler, ou que amo demais. O problema é que os “eu quero ler” por muitas vezes eram livros que eu acabaria não lendo nunca, mas não conseguia me desapegar. Eu tinha vários meios para dar vazão aos meus desapegos. Primeiro as bibliotecas, especialmente as municipais, que não recebem livros do governo constantemente como as escolares, mas também as de escolas que já estudei. Depois havia as trocas no Skoob, que me permitiam o lucro de conseguir outro livro. Também geralmente havia algum amigo interessado em algo que não me interessava, caso eu quisesse chegar a isso. Mas geralmente eu só destinava pra esses fins os livros que eu já tinha lido e tinha certeza de não ter gostado. Todos os outros, presentes inconvenientes e coisas do tipo, ficaram se acumulando por anos na minha estante até o ponto em que, depois de reunir novamente todos os meus livros em uma só casa depois de anos, eu percebi que minha quantidade de não-lidos era vergonhosa, e, mais do que isso, que muitos deles eu não tinha vontade de verdade de ler. Eu só não tinha coragem de me desfazer de uma coisa que eu tinha uma vaga esperança de gostar, por mais improvável que fosse e sempre me justificava pensando que mesmo encalhado na minha estante ele estaria melhor do que encalhado na biblioteca.

Tão errada. Mas tudo isso começou a mudar quando um dos meus melhores amigos começou a vender livros usados. Para ajudá-lo, eu me dispus a esquadrinhar minhas estantes e entregar pra ele vender, com uma pequena comissão, todos os que eu achasse que não teria interesse. E nesse exercício meio Marie Kondo saíram muito mais livros do que eu esperava, muitos deles fruto de uma época em que eu não tinha muito critério para comprar/escolher livros. Aliás, a curadoria mais eficiente das minhas leituras foi, provavelmente, a melhor evolução da minha vida literária, porque antes eu lia absolutamente qualquer coisa e, agora, depois de uma noção mais aguçada da passagem do tempo e do quão curto ele é pra permitir que você leia coisas ruins, eu já faço uma triagem que me permite adquirir sempre, no mínimo, livros bons, mesmo que não incríveis.

Dando uma olhada nos registros históricos do blog recentemente eu descobri uma tag que tinha respondido no começo de 2018 sobre livros não-lidos na estante e ver que quase nenhum dos livros que eu citei na tag habita mais na minha estante me deu um prazer que em outros tempos eu não teria com isso, porque eu simplesmente queria ter esses livros na estante esperando (em vão) lê-los e também com receio dos espaços vazios nela. Acho que o exemplo mais ridículo desse meu apego bobo era O Retorno do Jovem Príncipe, uma continuação de O Pequeno Príncipe que não foi escrita pelo autor original e que eu comprara provavelmente em 2009, ou seja, 10 anos atrás, e apesar de minúsculo nunca lera. E porque eu iria querer ler a continuação de um livro que eu não li pra começo de conversa? Ainda por cima com essa autoria de qualidade duvidosa. Tinha tentado muito trocar ele no Skoob mas não tinha rolado, e só agora ele finalmente liberou espaço na minha estante. Esse é só um exemplo de muitos, mas o que eu quero comentar mesmo é sobre o sentimento libertador de só ter na estante livros que de fato lhe interessam e de ter dado aquele que não era tão interessante pra você pra alguém que realmente se interessa por ele. Isso ajuda, de certa forma, a tirar a pressão dos não-lidos que é uma constante na minha vida. Porque eu deveria me sentir pressionada ou culpada por não ter lido ainda um livro que, pra começo de conversa, nem me interessava tanto assim? Mesmo sabendo que não deveria, a presença desse tipo de livro na estante sempre me transmitia essa sensação de pressão, que agora, ainda bem, foi extinta.

Ainda tenho alguns livros que acho que vou querer me desapegar depois de concluir a leitura e outros que me desapeguei, mas ainda não consegui passar pra frente. Mas mesmo depois de me desfazer deles, minhas estantes não vão ficar vazias e não vão me faltar leituras, como a vozinha acumuladora na minha cabeça costumava me fazer pensar. E tem muita gente e projetos no mundo que precisam dos livros e não tem acesso por questões financeiras, então se você não conseguir vender ou trocar os seus, procure as bibliotecas municipais (heroínas da resistência) que sempre estão precisando e sempre aceitam doações e que foram minha única fonte de leituras durante tanto tempo, procure projetos sociais na sua cidade (quase sempre eles existem, só são um pouco mal divulgados), e, caso nada disso resolva, sempre há iniciativas na internet pra conectar livros e leitores que precisam deles, como eu precisei por quase toda a minha vida.

O Que Eu Estou Lendo?: O Quarto de Giovanni – James Baldwin

No dia da defesa do meu TCC (tão esperada e temida, depois de um longo ano de sofrimento pra escrevê-lo), eu acabei me dando o presente de ir na minha livraria favorita e comprar o caríssimo O Quarto de Giovanni. Às vezes me incomodo em pagar caro por livros que não tenham lá grande qualidade física, mas não foi esse o caso. O livro tem capa e projeto gráfico lindos, texto de apoio super longo (que eu ainda não li) pra enriquecer a experiência, fonte, papel e tradução muito bons, então valeu a pena a grana preta que eu gastei com ele. Questões financeiras à parte, é uma vergonha que o James Baldwin só agora esteja sendo traduzido no Brasil, e muito provavelmente isso só aconteceu por conta do barulho que a adaptação cinematográfica de outra obra dele, If Beale Street Could Talk, fez no ano passado. Lá fora, o Baldwin é idolatrado e conhecido especialmente no campo da literatura queer por conta de O Quarto de Giovanni, e por ter sido o livro dele com o qual mais tive contato no meio dos estudos de gênero em literatura, acabou sendo o que mais me despertou curiosidade.

O livro conta a história de David, um jovem americano que ao início do livro está em Paris, esperando a possível volta da namorada e rememorando como chegou até aquela noite, véspera de um dia que ele teme que será o pior de sua vida, em que Giovanni (sobre quem ainda não sei nada na altura da obra em que estou) poderá ser executado.

Todas essas informações foram jogadas no leitor nas duas primeiras páginas, mais ou menos do mesmo jeito que o García Márquez faz em Cem Anos de Solidão: estabelece-se o tempo em que o narrador conta a história, que é um momento de expectativa de um grande clímax, como um presente que só vai ser alcançado mais à frente na narrativa, depois que o passado que levou o personagem até aquele momento for esclarecido, e que o futuro que sucede o tempo em que a história é narrada ainda vai ter muita história pra contar. Eu absolutamente adoro esse tipo de começo porque ao mesmo tempo em que constrói expectativa para o clímax também antecipa informações quebrando a expectativa de como esse “suspense” deveria ser tradicionalmente construído.

Também gostei muito até agora do modo como o narrador descreve os acontecimentos e cria atmosferas. A descrição que ele faz da primeira experiência homossexual do David é especialmente bonita, certeira e honesta, assim como o retrato que ele pinta da relação familiar entre o pai e a irmã que o criaram.

Em suma, ainda não encontrei nada do que reclamar e tenho expectativas altíssimas pro desenrolar do livro. Aguardem mais notícias.

Tag: Encalhados na Estante

Eu tenho feito posts sobre livros encalhados na minha estante já há algum tempo, e apesar de eles sempre me servirem pra lembrar dos livros que tinha esquecido que estavam ao alcance da mão, raramente eu leio os livros citados de verdade. Mas esse ano isso começou a mudar, porque eu de fato li alguns dos livros jogados por aqui há mais tempo e vou comentar em outro post a motivação pra isso, mas o que importa é que, inspirada por essa pequena vitória vou responder a essa tag com outros livros, fora os já constantemente citados, que eu preciso desencalhar.

1) Livro que está parado há mais de um ano

De acordo com o meu histórico da Estante Virtual, que é onde eu comprava livros há mais tempo, os meus não-lidos encalhados há mais anos são O Castelo de Vidro (5 anos), Escola de Sabores, Pantaleão e As Visitadoras e O Outono do Patriarca (4 anos). Não faço ideia de como eles passaram tanto tempo empacados, porque à exceção de Escola de Sabores (que comecei a ler há pouco tempo mas não fluiu por causa da minha ressaca literária), são todos livros que tenho certeza que vou gostar, conhecendo meu gosto como conheço.

2) Um lançamento que era muito aguardado e ficou pra trás

Eu geralmente não compro livros no lançamento, porque não tenho dinheiro pra carestia de livros recentemente lançados. Quando faço isso é com livros que eu queria muito ler e por isso eles não chegam a ficar encalhados. Os únicos que me lembro de ter comprado relativamente próximo ao lançamento e não ter lido até hoje foram o e-book de Manual da Faxineira da Lúcia Berlin, do qual cheguei a ler o primeiro conto (que inclusive adorei), mas acabei não continuando, e No Mar de Toine Heijmans que era o único livro barato da Cosac Naify na época que eu comprei (o longínquo 2016) e que estava com certo hype no booktube e acabei comprando sem motivo.

3) Uma conclusão ou continuação de série que ficou pra depois

Quando comecei a ler A Amiga Genial da Elena Ferrante eu fiquei tão empolgada e tinha tanta certeza de que ia amar o livro até o final como amei no começo que já comprei A História do Novo Sobrenome, segundo volume da tetralogia, só que a minha inconstância me traiu e acaba que nem A Amiga Genial eu terminei até hoje, imagine uma continuação. Com A Guerra dos Tronos foi o mesmo caso, li o primeiro livro, gostei e comprei o segundo, A Fúria dos Reis, mas continuo empacada até hoje.

4) Um autor que você ama, mas tá com um livro encalhado

O Gabriel García Márquez é simplesmente meu escritor homem preferido, e mesmo assim eu estou não só com um, mas três livros dele encalhados na estante. Uma vergonha completa. Vocês também sabem que eu gosto muito do Nick Hornby, mas até hoje não consegui terminar o Uma Longa Queda.

5) Todo mundo já leu menos você

Eu tenho uma mania estranha de às vezes comprar os livros quando eles ainda estão no hype, mas não lê-los até já terem sido completamente esquecidos. Esse é o caso de Kindred da Octavia E. Butler, que até tentei ler na época em que comprei, quando todo o booktube estava obcecado por ele, mas não consegui. Agora eu provavelmente sou a única pessoa que ainda tem interesse nesse livro, mas ainda não o leu. Já outro caso constante na minha vida é só ter dinheiro pra comprar quando o hype do livro já passou há muito tempo, como é o caso de Stoner, do John Williams, que ninguém mais lembra e do Americanah, da Chimamanda, que definitivamente só eu não li.

6) Pagou barato e ficou abandonado

O Deus das Pequenas Coisas – Arundhati Roy

Eu não lembro exatamente quanto esse livro custou, mas lembro de ter sido barato e de ter comprado por causa disso, já que ele não era exatamente uma prioridade, como continua não sendo. Tenho interesse por literaturas pós-coloniais, quaisquer que sejam, então provavelmente veio daí o interesse inicial, e provavelmente vai ser isso que vai me fazer finalmente lê-lo, um dia.

7) Comprou pela capa e ficou parado na estante

Na época em que a Amazon fazia praticamente uma promoção de Cosac Naify por dia eu acabei comprando A Antologia da Literatura Fantástica naquela edição lindíssima, capa dura, multicolorida, papel riquíssimo. Eu tenho interesse pelo fantástico latino, obviamente, mas a razão principal pra essa compra foi a capa mesmo. E até hoje ele não foi tirado nem da caixa.

8) Ganhou de presente e não leu

Eu ganho poucos livros de presente, geralmente as pessoas me dão dinheiro ou créditos pra comprar livros do meu interesse. Um dos únicos que eu me lembro de realmente ter ganhado e não ter lido foi Noite na Taverna do Álvares de Azevedo. O timing do presente foi bom, porque foi justo na época em que eu comecei a ter vergonha de ser uma estudante de Letras – Português que tinha lido dos clássicos, basicamente, apenas Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Fiz até projetos de leitura pra tentar remediar isso, mas como vocês podem perceber, não deu muito certo. Eu ainda pretendo ler Noite na Taverna um dia, mas quanto aos outros clássicos brasileiros, eu descobri que tenho muito mais interesse na literatura brasileira contemporânea e nos livros que passaram por baixo do radar do cânone ao longo da história da nossa literatura, especialmente os escritos por mulheres, e agora parei de forçar a barra com os tijolões cansativos.